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Publicado em 13/02/2020    90 Visualizações

Corinthians eliminado pelo Guaraní: desilusão, mas não vergonha

Pela segunda vez na história, equipe paraguaia triunfa em Itaquera. E isso está longe de ser um fiasco para os brasileiros.
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"Vergonha é roubar e não conseguir carregar." Esse era o ensinamento preferido, amparado por uma peculiar noção de moral, de uma antiga professora. Ela lecionava a insólita disciplina de Técnicas Comerciais (sim, vivemos de loucura) para a turma composta por crianças de 12 anos, para quem a única ambição na época era uma tarde livre. Faz tempo. Tanto tempo que o ápice da aula era ensinar a gurizada a preencher um cheque, atividade tão importante para o futuro daqueles estudantes quanto seria um Seminário sobre rebobinar fitas no vídeo-cassete.

Quem terá algumas noites livres em 2020 é o Corinthians, eliminado de forma precoce da Libertadores pelo Guaraní. Para os corintianos, é óbvio que o sentimento mais latente é de frustração, afinal de contas a temporada já começa um tanto comprometida em termos objetivos dentro do campo, sem contar o desfalque financeiro. O que não deve (ou não deveria) castigar as aflitas almas alvinegras é a sensação de vergonha. Eliminações estão sempre à espreita, atrás de alguma placa de publicidade. Vergonha é outra coisa, como ensinava a robinhoodiana professora apaixonada pelos zeros bem arredondados.

O Guaraní reafirmou seu insólito posto de touca corintiana: são dois enfrentamentos diretos e duas eliminações para os paraguaios, ambas na Arena de Itaquera. O Corinthians também tornou-se o único clube brasileiro a cair em duas fases eliminatórias da Libertadores. Contra os fatos não há argumentos, no máximo arrependimentos, e eles servem para rivais e alheios tripudiarem dos doloridos alvinegros. Mas todo grande clube tem seu Davi de estimação, e na verdade é uma bênção que na América do Sul o dinheiro ainda não seja totalmente decisivo. Que os menos abastados ainda derrubem os gigantes nas sempre traiçoeiras jornadas de Libertadores.

São muitas as desilusões; as vergonhas não me cabem, diria algum Drummond de ocasião, combatendo a insônia com um martelo de café amargo. Mas, mesmo no revés, há boas notícias. Se a eliminação obviamente não estava nos planos, o trabalho de Tiago Nunes parece promissor. O Corinthians teve um excelente primeiro tempo e, enquanto tudo era esperança de outras quartas-feiras, funcionou com desenvoltura a formação com Luan, Pedrinho, Vagner Love e Boselli, com Camacho e Cantillo abrindo a meia-cancha. Mesmo após a expulsão de Pedrinho, a equipe manteve a postura, tanto que foi para o vestiário com um placar que lhe classificava. O gol de falta de Fernández, logo no início do segundo tempo, instaurou o pânico em Itaquera, e daí até o fim sucedeu-se uma sequência de bolas aéreas rechaçadas com sacrifício pelo batalhão aurinegro, que jamais se absteve do jogo.

A façanha caiu duas vezes no mesmo lugar. Cinco anos depois, los aborígenes de Assunção voltaram a sair de Itaquera com a certeza de que fizeram história -- a história que lhes é possível. Apesar da disparidade em relação aos gigantes do continente, o Guaraní está acostumado aos grandes enfrentamentos do campeonato paraguaio, contra Cerro Porteño e Olimpia, contra quem disputa o clássico mais antigo do país. E não em vão soma onze títulos nacionais, o que não é pouco em um campeonato polarizado entre duas camisas tão populares.

Ser eliminado pelo Cacique, portanto, passa longe de poder ser classificado como fiasco. Quedas estrondosas diante de Guaraní, Tolima, Talleres ou Colón, na verdade, são eventos dramáticos que mantêm viva e tremulante a chama da Libertadores. Pode representar um trauma no dia seguinte, mas a longo prazo é uma bênção de proporções continentais. Do contrário, tudo estaria relegado à insossa formalidade dos cheques que já não circulam mais e do reconhecimento de firma no cartório.

 
Footer blog Meia Encarnada Douglas Ceconello — Foto: ArteFooter blog Meia Encarnada Douglas Ceconello — Foto: Arte

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FONTE: GE/RO






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