Indígenas de Rondônia pegam em câmeras para documentário em Sundance…

Os conflitos entre indígenas e invasores de terra na Amazônia brasileira ganharam um novo documentário produzido por estrangeiros e a etnia uru-eu-wau-wau, que traz um raro ponto de vista de fazendeiros e criminosos que insistem em tomar terras alheias. “O Território”, com direção do nova-iorquino Alex Pritz, estreia hoje (22) no Festival Sundance, maior evento do cinema independente norte-americano.

O filme é coproduzido pela comunidade indígena de Rondônia, que já havia sido equipada com drones para fazer a vigilância de seu território, uma área cada vez menor rodeada por desmatamentos. Pritz e sua equipe armaram a comunidade de câmeras profissionais, possibilitando uma visão mais íntima da aldeia, como quando eles se deparam com invasores em suas missões pela floresta.

Bitate Uru-Eu-Wau-Wau é um dos personagens principais, um jovem que passa a liderar a comunidade e também uma das câmeras. A força do filme está na luta incansável de Neidinha Suruí, liderança local à frente da ONG Kanindé. Casada com o cacique Almir Suruí, ela é mãe de Txai Suruí, ativista que discursou na COP26 e é uma das produtoras do documentário.

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Neidinha Suruí em cena de "O Território" - Divulgação - Divulgação
Neidinha Suruí em cena de “O Território”

Imagem: Divulgação

Do lado oposto, estão Sérgio, que funda uma associação de trabalhadores da terra para conseguir um pedaço do território dos uru-eu-wau-waus, e Martins, um criminoso que leva o diretor para filmar como se bota fogo na floresta.

Pritz, 31, morou por cinco anos no Quênia e foi diretor de fotografia do documentário “When Lambs Become Lions” (“Quando Cordeiros se Tornam Leões”, na tradução), sobre caçadores de elefantes no país. Formado em ciência ambiental e filosofia, Pritz conversou com Ecoa sobre sua experiência amazônica.

Ecoa – Como você foi parar na Amazônia e de onde veio a vontade de fazer esse documentário?

Alex Pritz – Em 2018, quando parecia que Bolsonaro poderia ser eleito, comecei a ir atrás de pessoas. Com Trump nos EUA, vi o que acontecia com áreas protegidas e parques nacionais, espaços importantes para grupos indígenas aqui nos EUA. Vi a admiração que Bolsonaro tinha por Trump e entendi que seria um período muito, muito difícil para quem defende a floresta no Brasil. É uma história muito semelhante à expansão do projeto colonial norte-americano. Entendi o que se passava na Amazônia de uma forma que eu mesmo me surpreendi. O Brasil, assim como os EUA como estado colonial, passou por um plano original semelhante na maneira de tratar as comunidades indígenas, o meio ambiente e a extração de recursos naturais.

Quanto tempo passou em Rondônia?

Cheguei no final de 2018 para o que pensei que seria uma viagem de reconhecimento, mas tudo foi acontecendo rápido demais e me joguei no trabalho. Passamos cerca de um ano e meio no total, entre sete viagens de dois e três meses cada, entre 2018, 2019 e 2021.
Uma das primeiras pessoas que procurei foi a Neidinha. Ela é como uma madrinha da conservação e proteção dos direitos indígenas no oeste da Amazônia. Ela tem uma energia incrível e começamos uma conversa emocionante sobre seu trabalho e os desafios que vinham pela frente caso Bolsonaro ganhasse. E essa conversa cresceu para incluir a comunidade uru-eu-wau-wau, com quem ela estava mais envolvida.

Como foi a decisão de contar também a história dos invasores de terra?

Era muito importante que o filme não repetisse o tipo de histórias ambientais que são contadas sobre esta região há tanto tempo. Foi uma prioridade que veio em grande parte de Bitate e Neidinha. Até mesmo ele reclamava às vezes dos jornalistas que passavam por lá e eles tinham que acompanhá-los na mesma viagem pelos mesmos lugares e responder as mesmas perguntas. Queríamos contar uma história melhor, mais honesta, que refletisse a situação real para tentar entender a fonte dessa violência e destruição. Para isso teríamos que falar com as pessoas que estavam cometendo esses atos.

Bitate atrás das câmeras no documentário "O Território" - Divulgação - Divulgação
Bitate atrás das câmeras no documentário “O Território”

Imagem: Divulgação

Como foi a aproximação para ganhar confiança e poder filmá-los?

Como somos americanos, sentiram uma certa afinidade com o meio-oeste, você vê no filme toda essa iconografia valorizando a cultura do caubói, do Texas. Eles se vêem como oprimidos, marginalizados por um sistema que um dia os celebrou como pioneiros. Me senti atraído por Sérgio por ser seu lado instrospectivo. Ele tentava mudar a lei de algo que hoje é ilegal, e não simplesmente dizia que é algo legal e pronto. Ele também entende mudanças climáticas de uma forma que me interessava. Dizia que precisava de novas terras porque a terra que ele teria acesso para trabalhar precisava de muitos fertilizantes e pesticidas, o que era muito caro. Mas lhe faltava a perspectiva de ver que, ao tentar escapar da pobreza e colonizar uma nova área, ele perpetuava as mesmas circunstâncias que o colocaram nessa situação lamentável.

Acha que Sérgio estava sendo sincero e que as terras não seriam depois vendidas para grandes empresas, como alerta Neidinha?

É uma dança realmente interessante. Eles tentam ativamente se retratar como pobres e que realmente precisam desta terra para sobreviver, mas havia todas essas regras no estatuto da associação de que ninguém poderia vender seu lote de terra por no mínimo dois ou três ou cinco anos, para se apresentarem aos políticos como um movimento realmente populista, para não parecer uma grande apropriação de terras. Mas a suposição é sempre que, depois desse período, a maioria vende seus lotes.

O documentário filma cenas criminosas de Martins colocando fogo em território indígena. Como foi a decisão de fazer esse registro?

Foi muito, muito difícil, foi um jogo de equilíbrio. Filmamos alguns renegados como o Martins, que não confiavam na associação formal e só acreditavam em si mesmos. Fui atraído por sua franqueza e capacidade de falar com bastante liberdade. Nós o conhecemos numa reunião de agricultores no dia anterior [da queima] e ele nos convidou. Foi emocionalmente difícil ver tudo aquilo queimando. Mas todos os envolvidos no filme sabiam que estávamos filmando outros pontos de vista. Neidinha e Bitate nos deram permissão e nos pediram para fazer isso. Tivemos que ter muito cuidado para não colocar ninguém em perigo, inclusive os invasores. Na época, Bolsonaro tentava construir a narrativa que eram as ONGs que colocam fogo na floresta, e tínhamos prova que isso era mentira.

O que você acha de Martins? Por que ele sente tanta necessidade de morar e invadir aquela terra que não é dele?

Ele nasceu em Rondônia, mas ele e Sérgio são imigrantes recentes. Os pais de ambos foram para lá. Martins acredita fortemente que se ele pode colocar algo em uso, ele merece mais do que qualquer outra pessoa. Para mim, ele meio que volta às ideias iluministas de John Locke e aos conceitos que impulsionaram a criação da propriedade privada na Europa, que a terra deve ir para o indivíduo que pode fazer dela seu melhor uso.

Como foi a experiência com os uru-eu-wau-waus e dividir a coprodução com eles?

A princípio, os líderes mais velhos estavam céticos em ter uma equipe de filmagem do exterior querendo filmá-los por talvez anos. Sentimos que para ter uma permissão entusiasmada precisávamos não apenas explicar e, sim, demonstrar o que queríamos fazer. Fizemos então algumas oficinas de cinema, explicamos o poder da edição, da narrativa. Foi um processo longo que a geração mais nova se ligou e depois levou aos mais velhos para explicar o valor que teria para a comunidade. Então, passamos muito tempo com eles e seguindo as missões de vigilância, que às vezes levavam uma semana na floresta.

Batite chama as câmeras de seu “arsenal”. Vocês que levaram as câmeras e drones para as aldeias?

Os drones já estavam lá, levados pela Neidinha que trabalhou com gente para treiná-los. Para nós, as câmeras eram uma coisa diferente. Era sobre a produção do filme e também sobre auto-expressão e criatividade. Quando a pandemia bateu, ninguém da nossa equipe que não fosse indígena podia pisar nas aldeias até chegar a vacina. Deixamos quatro kits de câmeras profissionais nos portões de várias aldeias, realizamos oficinas de cinema online e isso levou a um fluxo de trabalho híbrido que faz parte do terceiro ato do filme.

Você já esteve em muitos lugares de conflito no mundo. O que te move como cineasta?

Acho que estamos realmente estragando o planeta e não temos muito tempo a perder. Mudanças climáticas são um problema imediato, porém a ideia global de que uma solução única serve para tudo está ignorando as comunidades que têm nos alertado sobre o assunto por gerações. Tenho interesse nas histórias que o mundo exterior vê como branco e preto, o bem contra o mal. Mas, para realmente começar a resolver as causas do problema, você precisa entender os diferentes tons de cinza que existem entre eles. Caso contrário, vai falhar.

FONTE:UOL
final materia 1 Irene

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